sábado, abril 01, 2006

Autobiografia #6

Tenho mais de duas décadas de vida
(Pouco mais, pouco menos)
Tempo amorfo
Que abarca a existência

Tenho mais de duas décadas de vida
E ainda não sei
Do breu à minha frente
Nem da névoa – atrás –
eqüidistante

Tenho mais de duas décadas de vida
Não sei quantas dores
Mais uns tantos temores
E uma doença crônica

Tenho mais de duas décadas de vida
Um corpo mínimo
Que não suporta o risco
Que brilha nos olhos, nas lágrimas,
na limpidez do gozo

Tenho mais de duas décadas de vida
E não enxergo nada
[Seqüelas] – carne atropelada
Pelo carro desgovernado da lucidez

Tenho mais de duas décadas de vida
Jovem e talvez bêbado
(Não vou parafrasear Drummond*)
Com tantos cortes... Um belo dia
vou ser todo cicatriz.

Antonio Laranjeira




*Poema de Sete Faces : “Eu não devia te dizer / mas essa lua / mas esse conhaque / botam a gente comovido como o diabo.”

3 comentários:

Priscila Fernandes disse...

É difícil acordar e ler isso aqui, admito. Chamo a atenção para a quarta e quinta estrofe: escritas com o estomago, talvez? Muito duro..

L. F. Calaça disse...

Gostei das cicatrizes... Tenho menos do que isso e um bicado de cicatrizes pelo corpo. N me flagelo. Acho que flagelo é coisa de histérico em extase espiritual. talvez problemas crônicos de pele que só se resolvem com Baycuten. Sinto-me um octogenário. Às vezes menos, às vezes mais. E um bocado de poemas suicidas.

Andréa disse...

Vc e suas duas décadas de vida despertam nas minhas duas décadas um leve incômodo que me faz temer a vida. E isso é bom.