sábado, abril 22, 2006

Poema de amor #5

O amor se estrepou
Não pagou as contas
Água luz e telefone
Morto asfixiado
(Gás de cozinha)
Virou notícia de jornal
Virou espetáculo de fim de tarde
No meio da rua
Corpo estrebuchando
Atropelado pelo caminhão do lixo
O amor se estrepou
Dobrou a esquina
Deu de cara com a polícia
Fez um gesto obsceno
E foi pra cadeia
Cheio de hematomas
Todo esmolambado pede esmolas
Frutas da feirinha
Lambidas de vira-latas
Moedas atiradas
O amor se estrepou
Quase surdo-mudo
Não comunica
Entra em cena como mímico
Finge tão completamente
Chega a fingir que é amor
E é fantasia de carnaval
Dança bebe e fode
Goza ri e pena
Quarta-feira vira cinzas

Antonio Laranjeira

quinta-feira, abril 13, 2006


Poema de amor em 3 atos
Ato I

Sirenes, buzinas, pregões –
Uma voz estridente:
O corpo
[entre a turba]
é alhures.
Me exilo incomunicável.

Ato II

A dor do canto de cigarra
Lamento surdo do mendigo
– Basta.
Minha epiderme guarda a desmedida
Gozo inquebrantável do tempo.
No breu dos olhos, luz ambígua
Chama: noite queimando dia adentro

Ato III

Domingo cinco e meia da tarde
Pássaros brancos se afogam num céu de sangue.
Um assombro [o tempo]:
Lençóis, mesa e a cadeira vazia.

Antonio Laranjeira

domingo, abril 09, 2006

REF#09042006*

Pílulas, pílulas... Fígado fodido.
Doutor, pode dar um fim à minha dor!
Não àquelas que nem sei se tenho
[Só à que DEVERAS sinto]
As que finjo ter, as que não sei dizer
Essas, pode ser que sirvam...
Guardo aqui comigo
Nesse comboio de cordas
[bato no peito]
NÃO TENTE O MESMERISMO,
TAMPOUCO LOBOTOMIA.
Pode deixar,
Com elas, me viro.
E se por acaso alguma atacar
Música é o que não falta
Basta aprender a dançar.

Antonio Laranjeira




*O poema remete obviamente ao Pneumotórax e à Autopsicografia

sábado, abril 01, 2006

Autobiografia #6

Tenho mais de duas décadas de vida
(Pouco mais, pouco menos)
Tempo amorfo
Que abarca a existência

Tenho mais de duas décadas de vida
E ainda não sei
Do breu à minha frente
Nem da névoa – atrás –
eqüidistante

Tenho mais de duas décadas de vida
Não sei quantas dores
Mais uns tantos temores
E uma doença crônica

Tenho mais de duas décadas de vida
Um corpo mínimo
Que não suporta o risco
Que brilha nos olhos, nas lágrimas,
na limpidez do gozo

Tenho mais de duas décadas de vida
E não enxergo nada
[Seqüelas] – carne atropelada
Pelo carro desgovernado da lucidez

Tenho mais de duas décadas de vida
Jovem e talvez bêbado
(Não vou parafrasear Drummond*)
Com tantos cortes... Um belo dia
vou ser todo cicatriz.

Antonio Laranjeira




*Poema de Sete Faces : “Eu não devia te dizer / mas essa lua / mas esse conhaque / botam a gente comovido como o diabo.”