sábado, fevereiro 25, 2006


Carnaval

Começo meu carnaval subjetivo
Sem pierrôs ou colombinas
Sem um bêbado nas esquinas
Só as placas carros e a gorda faminta
A mulher muito gorda largada na calçada
Cantando um sucesso de verão
Os ferros retorcidos da arena
Luzes cores toda a cena
A mulher gorda, meu Rei Momo
Estropiado, mais que desgraçado
Espera...

(escuto uma marchinha
devagar, bem baixinha
vem de um canto do passado
trazendo um bloco
choro de velhas fantasias
lágrima estática
saudades que não são minhas)

Não pulo não danço nem tomo alegria
Perambulo pela cidade
Sonhando toda ela vazia
Corpos e escombros turvam o caminho
A mulher gorda o sucesso de verão
Os ferros retorcidos placas pelo chão
Cinzas: o gozo do fogo morto
Latas amassadas ruas e desvios
Quarta-feira apagada
Nos postes da avenida

Antonio Laranjeira

quinta-feira, fevereiro 23, 2006

Poética

Somente a dor atiça
[não o masoquismo]
É como a peste

O corpo treme
[gozo e mal-estar
não sei informar]
O bicho lá dentro
No fundo de mim
Uivando liberdade

Pra ele o corpo é pouco
A cerca fere a pele
Arranca os pêlos

O corpo é pouco
O mundo, demais

Antonio Laranjeira

quinta-feira, fevereiro 09, 2006

Risco

Dorme nos meus ombros
Perigo duma vida inteira
Sangue umedecendo o lenço
Medo em ermo noite adentro
Universo em expansão...
O corpo abriga pasmado:
A sede, a fome, o gozo
Perigo duma vida inteira
Adensando o ar que inspiro
Mutilando-me por dentro
Me inteirando de sentidos
A cada instante que morro

Antonio Laranjeira