sexta-feira, dezembro 29, 2006


Passeio diurno

Todos os meus mortos nas ruas
No busto da praça
Na igreja matriz
No rio aterrado
A lâmina da Lucidez
Faz uma fenda:
Os pedaços nunca serão suturados.

Antonio Laranjeira

sexta-feira, dezembro 22, 2006

Lucidez

A lucidez é um corte preciso.
Lâmina branca,
Dor premeditada.

A lucidez é um crime perfeito.
Vítima anônima,
Álibi sólido.

Corte preciso, crime perfeito –
Náusea e vertigem.

A lucidez é um corpo paralítico:
Muitos sentidos
Nenhuma saída.

Antonio Laranjeira

sexta-feira, outubro 20, 2006


A peste

O meu sangue lúcido,
A minha pele espúria,
Minhas carnes tênues.
Tudo treme:
É o Risco bradando
Nas veias e artérias
Sem saídas visíveis.

Antonio Laranjeira

sábado, outubro 14, 2006

Auto-retrato #190806

O coração é hermético
[inchado]
E o cérebro volátil.
Nas veias o sangue – lúcido –
Lava carnes anódinas.

Antonio Laranjeira

sexta-feira, setembro 29, 2006

Seqüela

Sopro –
No corredor, rumores:
Uivo branco da Lucidez.

Vidro, mármore, metal.
Um átimo: o choque e o chão.
A noite sobrevive,
deixando seqüelas.

Antonio Laranjeira

sábado, setembro 23, 2006


Isto não é um carnaval

Visto uma fantasia
Duas ou três máscaras
[pesar feiúra e dor]
E não é carnaval
[não pulo não rio nem gozo]
Ânsia de partir
Me fragmento em tantos
Me recomponho em tantos outros
Rasgo a carne morta e entrego aos cães
Sinto os dentes esticando
[ainda eu]
Partes
gotas de sangue
esvoaçando
Visto uma fantasia
Duas ou três máscaras
Mas não é carnaval...

Antonio Laranjeira

segunda-feira, agosto 28, 2006

Assalto

Luz branca
Agulha fina que queima
Fura os olhos: enxergo.

Os corpos são mais pedra;
Mais faca afiada.
O sujo do chão é mais sangue.

Lucidez:
O ar de chumbo que me cobre
É vida.

Antonio Laranjeira

domingo, agosto 27, 2006

Haikai urbano

Mau-presságio:
O caminhão do lixo atrasou
Meia hora.

Antonio Laranjeira

sábado, agosto 05, 2006

Praça da Saudade

No lodaçal do tempo
[pontada no meio da espinha]
O meu passo, lento
Recortes num painel:
Tesoura, cola, papel...

Sentado na praça da Saudade
As boas-novas no jornal
O presente corre nos trilhos
nos eixos da velha estação
Vagões de trem-fantasma
Desencontrando
Descarrilando
Desembarcando
Na velha estação...


Histórias. Coisas como restos
Um pedaço de pano
Um coração de madeira
Um porta-retratos
No meio da praça: um coreto
Com o sol de novembro
E uma bandinha dissoluta:
Vento morno ao pé do ouvido
Soprando sons pra um expatriado.

Antonio Laranjeira

sábado, julho 29, 2006

Náusea

Amanhã:
Tempo de lucidez.
Quarto de hospital
Branco
Lençóis brancos.

Do centro da espinha,
Vidro fosco, subcutâneo.

E fere, e sangra.

A mancha adensa
Olho arregalado
Boca engolindo tudo:
O Risco.

Amanhã:
A náusea,
o engasgo e
o silêncio.

Antonio Laranjeira

segunda-feira, julho 24, 2006

Haikais pós-modernos III

[Sábado à noite]

Bares lotados, faróis acesos
O carro corre noite adentro
O desespero queima em lâmpadas de sódio.

Antonio Laranjeira

terça-feira, julho 18, 2006

Autobiografia n.7

Abre o sino da matriz
Dois olhos negros de lucidez:
A noite engole migalhas –
[móveis velhos,
punhado de terra,
sol de Novembro]

Pedra e vidro fosco
Perfuram a pele:
Sangue e suor.

Me reconheço esquartejado
E as partes não combinam.

Antonio Laranjeira

quinta-feira, julho 13, 2006

Praça
A uma cidade qualquer de beira de estrada

Jardins líquidos
Bancos sozinhos
(Eta vida besta!)
Sem mulheres
sem laranjeiras
Sem amor.

Só um canto de maus presságios
No redemunho do tempo.

No meio da praça
Minha terra é alhures.

Antonio Laranjeira

quinta-feira, junho 29, 2006

Haikais pós-modernos - II

[Meio-dia]

No meio da feira, o flerte-fuga:
Peles, olhares, suores.
Buquê de plástico pisoteado no chão.

Antonio Laranjeira

sábado, junho 17, 2006

Haikais pós-modernos - I

[Seis e meia]

Out-doors, semáforos, esmoleres
Multidão em alarido:
O céu sangra lentamente.


Antonio Laranjeira

sábado, maio 20, 2006

REF.#022006

De que me serve a garganta
Se os gases das bombas
Queimam, sufocam e calam?
De que me servem as entranhas
A minha boca e o meu sexo
Se o meu prazer sabe a morfina?
Só me restam os olhos
Debaixo de uma cortina de luz.
Do alto da ponte sobre o Risco
Vislumbres da terra inexistente.
Oh deuses mortos! Caminhando
No asfalto lavado com sangue
Os órfãos olham os despojos
Totens de ouro na superfície
das valas enlameadas.
Longa passagem estreita:
Vigiada por lâmpadas de sódio
Cortejo de sonâmbulos.
No vão escuro das janelas
Se debruçam – reflexos da rua
De que me serve esse peito
[hipertrofiado]
Se dele o que sai é só um grito
abortado?

Antonio Laranjeira

sábado, maio 06, 2006

Risco #2

Abro a janela e fico cego:
O mundo é um buraco-negro
A vida [por um fio]
água pelo ralo.

O corpo opresso
[lampejo de lucidez]
Pressente o Risco:
Céu em chamas
Madrugada adentro.

Antonio Laranjeira

sábado, abril 22, 2006

Poema de amor #5

O amor se estrepou
Não pagou as contas
Água luz e telefone
Morto asfixiado
(Gás de cozinha)
Virou notícia de jornal
Virou espetáculo de fim de tarde
No meio da rua
Corpo estrebuchando
Atropelado pelo caminhão do lixo
O amor se estrepou
Dobrou a esquina
Deu de cara com a polícia
Fez um gesto obsceno
E foi pra cadeia
Cheio de hematomas
Todo esmolambado pede esmolas
Frutas da feirinha
Lambidas de vira-latas
Moedas atiradas
O amor se estrepou
Quase surdo-mudo
Não comunica
Entra em cena como mímico
Finge tão completamente
Chega a fingir que é amor
E é fantasia de carnaval
Dança bebe e fode
Goza ri e pena
Quarta-feira vira cinzas

Antonio Laranjeira

quinta-feira, abril 13, 2006


Poema de amor em 3 atos
Ato I

Sirenes, buzinas, pregões –
Uma voz estridente:
O corpo
[entre a turba]
é alhures.
Me exilo incomunicável.

Ato II

A dor do canto de cigarra
Lamento surdo do mendigo
– Basta.
Minha epiderme guarda a desmedida
Gozo inquebrantável do tempo.
No breu dos olhos, luz ambígua
Chama: noite queimando dia adentro

Ato III

Domingo cinco e meia da tarde
Pássaros brancos se afogam num céu de sangue.
Um assombro [o tempo]:
Lençóis, mesa e a cadeira vazia.

Antonio Laranjeira

domingo, abril 09, 2006

REF#09042006*

Pílulas, pílulas... Fígado fodido.
Doutor, pode dar um fim à minha dor!
Não àquelas que nem sei se tenho
[Só à que DEVERAS sinto]
As que finjo ter, as que não sei dizer
Essas, pode ser que sirvam...
Guardo aqui comigo
Nesse comboio de cordas
[bato no peito]
NÃO TENTE O MESMERISMO,
TAMPOUCO LOBOTOMIA.
Pode deixar,
Com elas, me viro.
E se por acaso alguma atacar
Música é o que não falta
Basta aprender a dançar.

Antonio Laranjeira




*O poema remete obviamente ao Pneumotórax e à Autopsicografia

sábado, abril 01, 2006

Autobiografia #6

Tenho mais de duas décadas de vida
(Pouco mais, pouco menos)
Tempo amorfo
Que abarca a existência

Tenho mais de duas décadas de vida
E ainda não sei
Do breu à minha frente
Nem da névoa – atrás –
eqüidistante

Tenho mais de duas décadas de vida
Não sei quantas dores
Mais uns tantos temores
E uma doença crônica

Tenho mais de duas décadas de vida
Um corpo mínimo
Que não suporta o risco
Que brilha nos olhos, nas lágrimas,
na limpidez do gozo

Tenho mais de duas décadas de vida
E não enxergo nada
[Seqüelas] – carne atropelada
Pelo carro desgovernado da lucidez

Tenho mais de duas décadas de vida
Jovem e talvez bêbado
(Não vou parafrasear Drummond*)
Com tantos cortes... Um belo dia
vou ser todo cicatriz.

Antonio Laranjeira




*Poema de Sete Faces : “Eu não devia te dizer / mas essa lua / mas esse conhaque / botam a gente comovido como o diabo.”

quarta-feira, março 22, 2006

Fragmento urbano #1

Sirene sangra a madrugada
[estilhaços]
Amores perdidos
Outros ganhos...
O breu abocanha o corpo
Pra além da rua:
esquecimento.

Antonio Laranjeira

quarta-feira, março 15, 2006

Poética-pílula

Prum bom entendedor
meia-palavra
basta!

Antonio Laranjeira

domingo, março 05, 2006


Poema de amor (REF. #07012006)

Não vou dizer que amor é fogo
Que meu corpo arde de desejo
Prefiro o eco de um grito rouco
Na madrugada,
um susto, um lampejo...

Antonio Laranjeira

sábado, fevereiro 25, 2006


Carnaval

Começo meu carnaval subjetivo
Sem pierrôs ou colombinas
Sem um bêbado nas esquinas
Só as placas carros e a gorda faminta
A mulher muito gorda largada na calçada
Cantando um sucesso de verão
Os ferros retorcidos da arena
Luzes cores toda a cena
A mulher gorda, meu Rei Momo
Estropiado, mais que desgraçado
Espera...

(escuto uma marchinha
devagar, bem baixinha
vem de um canto do passado
trazendo um bloco
choro de velhas fantasias
lágrima estática
saudades que não são minhas)

Não pulo não danço nem tomo alegria
Perambulo pela cidade
Sonhando toda ela vazia
Corpos e escombros turvam o caminho
A mulher gorda o sucesso de verão
Os ferros retorcidos placas pelo chão
Cinzas: o gozo do fogo morto
Latas amassadas ruas e desvios
Quarta-feira apagada
Nos postes da avenida

Antonio Laranjeira

quinta-feira, fevereiro 23, 2006

Poética

Somente a dor atiça
[não o masoquismo]
É como a peste

O corpo treme
[gozo e mal-estar
não sei informar]
O bicho lá dentro
No fundo de mim
Uivando liberdade

Pra ele o corpo é pouco
A cerca fere a pele
Arranca os pêlos

O corpo é pouco
O mundo, demais

Antonio Laranjeira

quinta-feira, fevereiro 09, 2006

Risco

Dorme nos meus ombros
Perigo duma vida inteira
Sangue umedecendo o lenço
Medo em ermo noite adentro
Universo em expansão...
O corpo abriga pasmado:
A sede, a fome, o gozo
Perigo duma vida inteira
Adensando o ar que inspiro
Mutilando-me por dentro
Me inteirando de sentidos
A cada instante que morro

Antonio Laranjeira

terça-feira, janeiro 31, 2006

Insônia

Ponteiros cravados na carne
O matiz da madrugada: uma bofetada
O silêncio é uma boca aberta
num pesadelo sem fim [nem começo]
Fechado o peito é uma cela
cheia de agonias renitentes
Condenados à morte amordaçados
assistem a uma procissão infernal
Um manto de chumbo
pesadas sombras ermo profundo...
Sem fim ou começo
Gotas despedaçando o ar escuro
Intermitências de infinitudes aparentes
O espelho derrete o rosto
a cada passo no apartamento
Minuto a minuto
Lâmpadas de sódio em coro
mariposas em volta: ciranda muda
O corpo pálido queima
Duas três dez vezes ou mais
[ponto de brasa no breu]
Estica e comprime os músculos
[o corpo]
Sem fôlego apaga:
cinzeiro... copo quase vazio...
Um canto de galo lamenta o novo dia

Antonio Laranjeira

segunda-feira, janeiro 09, 2006

REF. #09012006

Não quero viver
Encoberto por metáforas
Escavo com as unhas
A lama que escorre

Mostro o rosto em carne viva
os músculos contraídos...
Cada sulco esculpido
É meu corpo trôpego

Não quero viver
Fingindo essa poesia
Entre cacos de palavras
Que não passam de agonia

Antonio Laranjeira

sábado, janeiro 07, 2006


Lucidez

A lucidez é um carro
desgovernado:
Estilhaços na madrugada.

Assombro:
Dor sem palavras.

Correndo em contra-mão
– Verso [e reverso] –
Entornam bile, sangue
e esperma.

Antonio Laranjeira