quarta-feira, dezembro 28, 2005

Autobiografia n.5

Quero me afogar no mar
Deixar atrás a cidade
Quentura de águas noturnas
Beber...
respirar meu alimento
Quero me afogar no mar
Sentir o gosto salgado
[língua no mamilo]
No fundo águas passadas
Me perder no redemunho
Quero me afogar no mar
Na eternidade dos dias
A areia vira madrepérola
[um pedaço de madeira
um vulto
um cheiro indistinto]
Quero me afogar no mar
Deixar atrás a cidade
Me recompor nos vestígios
Restos de um naufrágio
Guardados numa gaveta

Antonio Laranjeira

quinta-feira, dezembro 22, 2005


Autobiografia n.1

Luz forte cega meu olhar:
O passado surge
Em palpitações descompassadas.

Antonio Laranjeira
Dezembro de 2005

sexta-feira, dezembro 16, 2005

Autobiografia n.3

Grito de pesadelo
Menino preso no tempo
Suores
sobressaltos...
A meia-luz:
Um porta-retratos
Fere a madrugada

Antonio Laranjeira
Dezembro de 2005

quarta-feira, dezembro 14, 2005

Náusea

Quero pôr pra fora
Um troço qualquer
No meu peito o aperto
Na garganta o engasgo
No cérebro a angústia
Que lateja e que arde
O vai e vem do tempo
Meu corpo em frangalhos
Quero pôr pra fora
Um troço qualquer
O vento quente sujo
Baforada de horrores
Sol ponta de cigarro
Tecido em chamas
Meus olhos lanhados
Agudez de sentidos
Quero pôr pra fora
Um troço qualquer

Antonio Laranjeira

domingo, dezembro 11, 2005


A um desconhecido

Em desespero corre
[som de sirene]
Curvas, sulcos, hastes
Encontra e se biparte
Lâmina afiada, o pêlo
É a lágrima que se esgota
Água e sal: pequeno mar
De afogadas mágoas
[ciúmes, rancores, não-ditos]
— o corpo inerte —
Talvez morte cerebral
Ou só falta de oxigenação
[seqüelas]
Sondas, fios, agulhas
A carne – esgarçada
Nos humores, purgação
Dissabores remoídos
Migalhas...resíduos...
Em desespero corre
A lágrima
[som de sirene]
Ferindo a noite
De uma avenida sem fim

Antonio Laranjeira
Novembro de 2005