Sexta-feira, Maio 01, 2009

Biografia do Artista local (e também global) – parte 1

Nascido numa Família de artistas (o pai Artista Plástico Consagrado e a mãe, Pianista Exímia), o Artista local apresenta sua primeira exposição sob muita expectativa. Sou naturalmente inquieto e isso só aumenta minha criatividade. Sempre fui assim. O Artista local, mais novo de três irmãos também artistas e bem conhecidos e resenhados, confessa que desde sua infância convivera com pessoas de Cultura. Os amigos de papai sempre bebiam vinho e conversavam coisas muito profundas, aos domingos, pela manhã, sob o som de Haydn. Na época eu perguntava: papai, o que está tocando? Ele respondia “Haydn, filho.”, eu tentava e não conseguia falar direito o nome [risos], mas adorava mesmo assim. Enquanto isso, eu e meus irmãos brincávamos de intelectuais. Acabei lendo muito, e já tinha A MONTANHA MÁGICA como meu livro de cabeceira. Como todo Artista local, ele não se esquece dos seus traumas infantis. Houve uma vez – quando estava me recusando a dormir, pois precisava terminar o Finnegans Wake, no original – em que papai, num acesso de raiva artística, rasgou o meu exemplar favorito de O homem sem qualidades, de Musil. [risos] Ele me fez limpar os pedaços e eu, como fiquei muito aborrecido, xinguei-o de sub-artista [risos, novamente]. Hoje, depois de anos no psiquiatra, me considero bem resolvido… somos bons amigos, eu e papai.

Segunda-feira, Março 16, 2009

Sobre o apoio do Estado

O material enviado por você, Artista, não será devolvido, mesmo que rechaçado com louvor.

Foram mais de 500 inscritos, tentando uma exposição no Museu de Arte Moderna. Apenas 3 foram escolhidos, sendo que o vencedor terá suas obras vistas por centenas e milhares de cidadãos periféricos do globo. O coquetel de abertura contará com a presença do excelentíssimo governador do estado e autoridades afins.

[Depoimento do vencedor ao jornal de grande circulação no estado]


– Minhas Obras de Arte são fruto de inquietações profundas. Aquela escultura, por exemplo [a câmera gira e foca: uma pedra dentro de um aquário], simboliza as angústias que o indivíduo pós-moderno sofre, diante de um crescente e impiedoso processo de globalização. O aquário é também para mim um signo que remete à minha infância, no interior do estado, na fazenda dos meus pais, quando eu respirava arte e, aos 7 anos de idade, já recitava poemas de Hölderlin, no original.

Sexta-feira, Março 13, 2009

Auto-retrato da grande promessa das artes plásticas

– Minha expressão é essencialmente urbana... Acho que diante da rapidez, dessa loucura do dia-a-dia, é preciso buscar novas formas de falar com o público... blah...blah...blah...
– JAT (Jornal de Grande Circulação): O senhor artista não acha que o Mercado de arte local é um tanto limitado?
– Não. Particularmente, junto com a mesada dos meus pais, acho que dá para viver com a Minha Arte... blah..blah...blah [sic].

A exposição intitulada Olhares do corpo urbano: entes e doentes ocorrerá no Museu de Arte Moderna, entre os dias 15 e 31 do mês de Novembro. O coquetel de abertura contará com as presenças dos artistas plásticos De Grande Renome e Com Ar Melancólico, Embora Rico.

Quinta-feira, Março 12, 2009

Sem saídas para a arte local

Sobrenomes de sempre
Rostos de sempre
Ar excêntrico das narinas
Nossa arte de autobiografias
em jornais e revistas dominicais
Com a imagem blasé de sempre
Repetida em série, em série, em série...

O ESCRITOR NÃO É MAIS O MESMO!

Como percebi que o proprietário do blog não o atualizava há alguns meses, resolvi tomá-lo à força. Explico: era um leitor que simpatizava com os textos dele, mas, com a demora para publicar novidades, eu decidi assumir o sítio e publicar os meus próprios textos. Preferi preservar o que já estava divulgado e, como acho que ele não tem muita habilidade com tecnologias (pois assim são os Literatos), não terá como recuperar o poder... Ao vencedor, as batatas!
Por isso, é com muita honra que afirmo O ESCRITOR NÃO É MAIS O MESMO!
Aliás, nem eu mesmo sou escritor, mas um simples hacker em busca de respeito pelos leitores de blog, sempre ávidos por atualizações, mesmo que sejam insignificâncias verbo-digitais.

Segunda-feira, Junho 09, 2008

Fotográfico n.2

No retrato antigo
Olhos refratam a dor
Da alegria eterna

Antonio Laranjeira

Domingo, Março 09, 2008

Termo

Palavras emudecem devagar.
Só a presença:
Sem bom ou mau presságio.
Depois de tudo, o corpo esconde
o que é irrevogável.

Antonio Laranjeira

Domingo, Fevereiro 24, 2008

Poema de amor

Tudo apenas fantasia.
Quando, ao fim do dia, a noite cai
Não há voz, nem luz
Só o céu, buraco-negro
E o silêncio – espelho cego
num desterro.

Antonio Laranjeira